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SP: reabertura de escolas amplia risco de covid-19 para 340 mil idosos

Mais de 20% dos idosos da cidade de São Paulo moram em casas com jovens em idade escolar. - Marcelo Camargo/Arquivo Agência BrasilDe acordo com a professora da Faculdade de

Por Mauricio Santos em 29/09/2020 às 14:25:00

Mais de 20% dos idosos da cidade de São Paulo moram em casas com jovens em idade escolar. - Marcelo Camargo/Arquivo Agência Brasil

De acordo com a professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) Yeda Duarte, mais de 20% dos idosos da cidade de São Paulo moram em casas com jovens em idade escolar. Um fato que, segundo ela, precisa ser levado em conta ao se discutir o retorno das aulas presenciais.

O alerta foi feito durante o webinar "Covid-19, 60+: que epidemia é essa?", promovido pela Agência Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo) em parceria com o Canal Butantan. A íntegra do evento pode ser assistida no YouTube.

"Estamos falando de aproximadamente 340 mil idosos em contato próximo com crianças e adolescentes que vão retornar à vida normal, podem ser [portadores do SARS-CoV-2] assintom√°ticos e vão trazer essa contaminação para dentro de casa", disse a pesquisadora.

Pesquisa

Com o apoio da Fapesp, a professora coordena, desde 2000, o Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), que busca avaliar periodicamente as condições de vida de moradores do município de São Paulo com 60 anos ou mais. O dado apresentado no semin√°rio foi extraído da edição mais recente, conduzida entre 2015 e 2017 com 1.236 participantes selecionados para representar o perfil da população idosa da capital.

Nos últimos meses, em parceria com pesquisadores do Instituto Butantan, a equipe do SABE tem investigado como a covid-19 vem afetando esse grupo de volunt√°rios. Além de entrevistas por telefone para avaliar o impacto da doença e do isolamento social, foram feitos exames sorológicos (para buscar a presença de anticorpos contra o novo coronavírus) em 310 idosos e em todas as pessoas com quem eles mantêm contato frequente.

No caso de indivíduos que apresentaram sintomas suspeitos nos 15 dias que antecederam a coleta, também foi feito o teste de RT-PCR (que detecta o RNA do vírus e é o principal método de diagnóstico da covid-19).

Dados preliminares do SABE-COVID (80% dos resultados tabulados) apontam uma soroprevalência de 4,5% entre os idosos avaliados. Entre seus principais contactantes o percentual foi mais que o dobro: 9,6%.

"O maior número de reagentes est√° entre os contactantes e essa é uma questão importante quando se fala em retomar as atividades normais. Os idosos estão nas suas casas e, na maioria das vezes, cumprindo o distanciamento social. Mas estão sendo contaminados pelas pessoas que continuam circulando pela cidade e trazem o vírus de fora para dentro", afirmou Yeda.

A maioria dos casos e os dois únicos óbitos registrados no grupo de estudo ocorreram na zona sul da cidade, em bairros como Campo Limpo, Jardim √āngela e Jardim São Luís. Na sequência estão Pirituba, Freguesia do Ó (ambos na zona norte), Aricanduva e Artur Alvim (na zona leste).

Segundo Yeda, a maior soroprevalência em bairros periféricos tem relação com as condições de moradia nesses locais. "H√°, por exemplo, um maior número de pessoas vivendo na mesma casa. Esse aspecto da desigualdade social precisa ser considerado ao se definir a flexibilização das medidas de controle e os grupos priorit√°rios para vacinação", destacou.

Infectados em casa

Uso de m√°scara para proteção contra o novo coronavírus.

Uso de m√°scara para proteção contra o novo coronavírus. - Ricardo Wolffenbuttel/Governo de SC

Dados do Sistema de Informação de Vigil√Ęncia Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), apresentados no evento pelo médico Paulo Rossi Menezes, membro da Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD) da Secretaria Estadual da Saúde, corroboram a avaliação de que a maioria das contaminações entre os idosos ocorreu em casa.

"Após ser introduzida a obrigatoriedade do uso de m√°scaras, no mêsde maio, houve uma inflexão dram√°tica nas curvas de internação e de mortalidade por síndrome respiratória aguda grave [SRAG] associada à covid-19 na capital e na Grande São Paulo. Mas isso quando se olha a população como um todo", afirmou.

"J√° quando se olha apenas as curvas das pessoas com 60 anos ou mais o padrão é totalmente distinto. O crescimento não se interrompe quando a m√°scara é introduzida e se mantém até o fimde junho. Isso reforça a ideia de que os idosos estão sendo infectados dentro de suas casas. As pessoas que moram com eles saem às ruas de m√°scara, mas tiram a proteção ao retornar", explicou.

Segundo Menezes, os casos confirmados de covid-19 no estado de São Paulo estão concentrados na faixa de 30 a 50 anos de idade, à qual pertence boa parte dos indivíduos que continuaram trabalhando no período de quarentena.

No entanto, os idosos representam três quartos das mortes confirmadas. Desses, 83% tinham uma ou mais doenças crônicas, sendo as principais cardiopatias (52,4%), diabetes (36,5%) e doenças neurológicas (10,4%). Entre as pessoas com mais de 60 anos que precisaram ser internadas após contrair o vírus, 42% evoluíram para óbito.

Genética

Na busca por fatores genéticos que podem aumentar ou diminuir o risco de morrer em decorrência da infecção pelo novo coronavírus, a geneticista Mayana Zatz , coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL) da USP, j√° encontrou sete centen√°rias que tiveram contato com a covid-19 e desenvolveram apenas sintomas leves ou se mantiveram assintom√°ticas.

"Para identificar os genes de risco e de proteção resolvemos focar nos extremos. Estamos coletando amostras de pessoas que morreram após contrair a doença e de idosos resistentes. Algo que nos surpreendeu foi a existência de casais discordantes, ou seja, em que apenas um dos cônjuges teve a doença. Ach√°vamos que era algo raro, mas recebemos mais de 800 e-mails com esse tipo de relato. J√° coletamos amostras de 100 casais e vimos que a maioria dos assintom√°ticos tem sorologia negativa e 65% são do sexo feminino", contou.

O passo seguinte ser√° sequenciar o genoma dos centen√°rios e nonagen√°rios resistentes à covid-19, contou a pesquisadora. "Podemos reprogramar células do sangue dessas pessoas para criar linhagens de diversos tecidos, infectar as células em laboratório e ver como o vírus se comporta. Isso nos permitir√° entender o mecanismo genético da infecção."

Também participou do webinar o diretor do Instituto Butantan, Dimas Tadeu Covas, que apresentou resultados parciais dos testes da vacina CoronaVac em volunt√°rios com mais de 60 anos. Segundo o pesquisador, os dados indicam um "excelente perfil de segurança" do imunizante, desenvolvido pela empresa chinesa Sinovac Biotech.

Fonte: Agência Brasil

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