magalu
uol
webhotel

Pandemia revela desigualdades raciais, diz estudo

An√°lise publicada em forma de ensaio científico nos Cadernos de Saúde Pública da Funda√ß√£o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e assinado por pesquisadoras de unidades

Por Redação em 14/10/2020 às 09:59:08

An√°lise publicada em forma de ensaio científico nos Cadernos de Saúde Pública da Funda√ß√£o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e assinado por pesquisadoras de unidades da funda√ß√£o e do Núcleo de Pesquisas Urbanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) diz que a desigualdade no acesso a direitos b√°sicos como saúde, saneamento e trabalho tornou a popula√ß√£o negra e periférica mais vulner√°vel à pandemia de covid-19, desmentindo ideia inicial de que as consequências da doen√ßa seriam igualmente sentidas na sociedade.

O ensaio tem como principal autora a pesquisadora Roberta Gondim, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fiocruz, e é creditado também às pesquisadoras Ana Paula da Cunha, Ana Giselle dos Santos Gadelha, Christiane Goulart Carpio, Rachel Barros de Oliveira e Roseane Maria Corrêa. Com a an√°lise de dados de abril e maio, o texto cita o mito da democracia racial para comparar que uma ideia semelhante circulou quando foi repetido nos primeiros meses que a pandemia seria "democr√°tica", representando o mesmo risco a todos os que n√£o fizessem parte dos grupos em que a doen√ßa tem mais chances de apresentar suas formas mais graves, como idosos e doentes crônicos.

"Ocorre que a realidade da classe trabalhadora de baixa renda, majoritariamente negra e moradora de territórios vulnerabilizados, é outra. S√£o predominantemente trabalhadores precarizados, que n√£o têm o privilégio de ficar em casa, em regime de trabalho remoto; que utilizam os transportes públicos superlotados; têm acesso prec√°rio ao saneamento b√°sico; e est√£o na linha de frente do atendimento ao público no setor de servi√ßos, incluindo os de saúde", descreve o ensaio.

Como resultado desse quadro, a an√°lise mostra que, depois de chegar ao país com viajantes das classes média e alta, o vírus se disseminou de modo a afetar mais a popula√ß√£o negra. Na Semana Epidemiológica 15 (4 a 10 de abril), a popula√ß√£o branca representava 73% das interna√ß√Ķes e 62,9% dos óbitos. Cerca de um mês e meio depois, na Semana Epidemiológica 21, os dados mostram propor√ß√Ķes semelhantes de brancos e negros em rela√ß√£o às hospitaliza√ß√Ķes. Nos óbitos, entretanto, a popula√ß√£o negra passa a representar 57%, enquanto a branca representa41%.

O ensaio alerta que o fato de a propor√ß√£o de negros ser mais expressiva entre os óbitos que entre as hospitaliza√ß√Ķes "refor√ßa a an√°lise sobre a dificuldade de acesso dessa popula√ß√£o aos servi√ßos de saúde, principalmente os de maior complexidade, como os leitos de cuidados intensivos". Além disso, a pesquisa também aponta que h√° um alto percentual de ausência de registro de ra√ßa e cor nos casos confirmados e óbitos por covid-19, apesar de a Portaria n¬į 344 de 2017 do Ministério da Saúde determinar que essa informa√ß√£o deve ser preenchida obrigatoriamente nos atendimentos em servi√ßos de saúde. "A ausência do registro dessa vari√°vel também revela o racismo, nos moldes institucionais, pois impede que vejamos a verdadeira magnitude da exclus√£o da popula√ß√£o negra".

O texto acrescenta que "a pandemia apresenta sua face mais cruel" nas periferias e favelas, e cita como um dos exemplos o bairro de Brasil√Ęndia, em S√£o Paulo, onde taxas de contamina√ß√£o e óbitos superaram as regi√Ķes centrais da cidade no fim de maio. J√° em Fortaleza, no Cear√°, a din√Ęmica de cont√°gio se intensificou em bairros pobres como Grande Pirambu e Barra do Cear√°, depois da dissemina√ß√£o em bairros ricos turísticos.

Cen√°rio

As pesquisadoras relacionam esse cen√°rio com o enfrentado pela popula√ß√£o negra nos Estados Unidos, país que também teve uma história marcada pela escraviza√ß√£o de povos africanos. O estudo cita a cidade de Chicago, onde os negros representavam 29% da popula√ß√£o e 70% das mortes por covid-19 até a primeira semana de abril.

"A popula√ß√£o negra norte-americana, em compara√ß√£o à branca, tem os piores indicadores de saúde: menor expectativa de vida ao nascer, maior propor√ß√£o de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, maiores taxas de mortalidade infantil, maior taxa de mortalidade relacionada à diabetes, dentre outros", cita o ensaio, que aponta uma diferen√ßa: "O Brasil conta com um sistema universal de saúde, com o pressuposto de cobrir as necessidades de saúde de toda a popula√ß√£o. Entretanto, também apresenta grandes disparidades nos indicadores sociais, em face das desigualdades sociorraciais".

O ensaio também traz dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mostram a desigualdade socioeconômica entre negros e brancos no país, como o acesso ao saneamento b√°sico, fundamental para os cuidados de higiene necess√°rios para prevenir a covid-19: 12,5% dos negros e 6% dos brancos vivem em locais sem coleta de lixo no país; 17,9% dos negros e e 11,5% dos brancos n√£o tem abastecimento de √°gua por rede geral; e 42,8% dos negros e 26,5% dos brancos n√£o possuem esgotamento sanit√°rio por rede coletora ou pluvial em casa.

Governo

Em setembro, uma portaria do governo federalinstituiu um incentivo financeiro para o fortalecimento das equipes e servi√ßos da aten√ß√£o prim√°ria no cuidado à saúde de popula√ß√Ķes específicas, no valor total de R$ 319,4 milh√Ķes. A verba é doFundo Nacional de Saúde (FNS) se destina à distribui√ß√£o para municípios e Distrito Federal,em parcela única.

O incentivo financeiro tem a finalidade de apoiar a gest√£o local na qualifica√ß√£o da identifica√ß√£o precoce, do acompanhamento e monitoramento de popula√ß√Ķes específicas com síndrome gripal, suspeita ou confirma√ß√£o da covid-19. A Agência Brasilprocurou o Ministério da Saúde para comentar o ensaio e aguarda retorno.

Fonte: Agência Brasil

magalu 2

Coment√°rios

magalu 3