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De maneira desastrada, Bolsonaro atropela a√ß√Ķes de hospitais contra o coronav√≠rus

Por Redação em 25/03/2020 às 19:12:58

Em tr√™s dos pa√≠ses que j√° t√™m dados suficientes para estabelecer de forma mais segura o perfil et√°rio dos mortos pelo v√≠rus (China, Espanha e It√°lia), os óbitos de pessoas abaixo dos 40 anos n√£o supera 0,3% dos infectados. A taxa só sobe para ao redor de 1% para aqueles entre 50 e 59 anos, para depois aumentar rapidamente entre os mais velhos.

Os tr√™s pa√≠ses t√™m percentuais de pessoas acima de 65 anos maiores do que o Brasil (12%, 19% e 23%, respectivamente, ante 10%), o que deve levar, proporcionalmente à popula√ß√£o, a mais mortos entre eles.

Para se ter seguran√ßa de que a divis√£o et√°ria no Brasil seguir√° o mesmo padr√£o desses pa√≠ses, porém, seria necess√°rio esperar por uma base maior de óbitos que sustente essa premissa.

Outro ponto fundamental a ser atacado antes de se considerar qualquer libera√ß√£o parcial dos mais jovens, segundo especialistas, seria massificar o n√ļmero de testes para a Covid-19, algo que a Coreia do Sul fez com sucesso –a China também, embora em menor escala–, o que permitiu modular os impactos econ√īmicos de maneira mais eficiente.

Ao identificar com mais exatid√£o onde os focos da doen√ßa se concentravam, foi poss√≠vel deixar que outras regi√Ķes e comunidades inteiras pudessem circular e trabalhar mais livremente.

No Brasil, só a partir desta semana o Ministério da Sa√ļde passou a priorizar a importa√ß√£o e o aumento, em massa, do n√ļmero de testes –algo que vem sendo considerado um dos erros imperdo√°veis da pasta até aqui no planejamento contra a epidemia.

Antes que os testes ocorram para valer, é imposs√≠vel saber até se motoristas de ambul√Ęncia, policiais e caixas de supermercado est√£o infectando outras pessoas.

Mas o ponto priorit√°rio a considerar é o front de atendimento aos doentes. Acabar agora com o isolamento, como quer o presidente, provocaria estragos irrepar√°veis.

Os comandos dos hospitais ainda consideram essencial "achatar a curva" de infectados pela via do confinamento para que tenham tempo suficiente para preparar o sistema para quando a epidemia ganhar toda a força, repetindo os outros países.

Depois de mapear o n√ļmero de leitos de UTIs em todo o Brasil, seu n√≠vel de ocupa√ß√£o e o que pode ser ampliado com o cancelamento em massa de cirurgias eletivas, a prioridade dos hospitais passou a ser identificar e organizar os ventiladores para respira√ß√£o assistida, fundamentais para o tratamento dos pacientes graves –mesmo que fora de UTIs.

Nos epicentros da epidemia no mundo, t√™m sido demandados, em média, 2,4 leitos de UTI para cada 10 mil habitantes. O Brasil tem pouco mais de 2,1 por 10 mil, mas com distribui√ß√£o regional muito desigual.

Também é muito desproporcional a divis√£o entre o que h√° no SUS (1 leito de UTI para cada 10 mil habitantes) e no sistema privado (4,8 por 10 mil segurados).

Assim, a adequa√ß√£o dos cerca de 57 mil leitos de UTIs existentes ainda vai levar algum tempo. Sobretudo porque 95% deles no setor p√ļblico e 80% no privado j√° viviam ocupados antes da epidemia –algo que est√° sendo redimensionado agora com o cancelamento de cirurgias n√£o priorit√°rias.

No caso dos ventiladores, o principal equipamento para tratar casos graves, o país tem quase 3 para cada 10 mil habitantes, em um total de 62 mil unidades.

A maior parte deles fica normalmente sem uso em leitos de UTI para pacientes internados não por causa do coronavírus. Por isso, eles estão sendo mapeados e preparados para ser transferidos para outras áreas em caso de necessidade.

Esses esfor√ßos log√≠sticos v√™m sendo executados neste exato momento. E saturar abruptamente o sistema como resultado da libera√ß√£o geral de pessoas mais jovens às ruas comprometeria uma reorganiza√ß√£o que leva tempo, com o esfor√ßo enorme de equipes hospitalares j√° trabalhando no limite.

Outro ponto fundamental, caso decis√£o nesse sentido seja tomada mais à frente, é como levar a sociedade a separar de forma radical a conviv√™ncia das pessoas mais jovens dos que fazem parte dos grupos de risco, como os mais velhos e indiv√≠duos com doen√ßas pré existentes.

Embora qualquer discuss√£o mais propositiva ainda deva esperar a adequa√ß√£o imperiosa dos pontos acima, sobretudo dos testes e do sistema de atendimento –além de ter de assumir o risco aos mais jovens e seus familiares–, médicos argumentam que uma crise econ√īmica profunda também ter√° efeitos graves sobre a sa√ļde, especialmente pela via da nutri√ß√£o e da insalubridade de muitos ambientes domésticos durante o confinamento.

A grande pergunta agora é quanto tempo um pa√≠s com quase 10% da popula√ß√£o favelada, 38,3 milh√Ķes de informais e com rendimentos médios de R$ 820 na metade mais pobre, antes da crise, aguentar√° sem come√ßar a sair à rua de forma desorganizada.

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