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Covid-19: especialistas iniciam estudo com plasma sanguíneo

Objetivo é atenuar sintomas da infecção nos doentes

Por Redação em 06/04/2020 às 16:45:24

Um grupo de pesquisadores dos hospitais Israelita Albert Einstein e Sírio-Liban√™s e da Faculdade de Medicina da Universidade de S√£o Paulo (USP) desenvolve um estudo para verificar se a utiliza√ß√£o do plasma de pacientes recuperados de covid-19 pode atenuar sintomas da infec√ß√£o nos doentes. O plasma é a parte líquida do sangue e, nesse caso, é classificado como plasma convalescente, de acordo com o jarg√£o de especialistas da √°rea.

De acordo com o diretor do banco de sangue do Sírio-Liban√™s, Silvano Wendel Neto, os cientistas prop√Ķem tratar o plasma de pacientes que apresentaram um quadro leve da infec√ß√£o para ajudar aqueles que ainda est√£o doentes a produzir anticorpos contra o vírus. O plasma convalescente ser√° introduzido no corpo dos pacientes enfermos mediante transfus√£o de sangue. O uso dessa subst√Ęncia segue regras estabelecidas pelos Comit√™s de Ética em Pesquisa (CEPs), pela Comiss√£o Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e Conselho Federal de Medicina (CFM).

"Quando a gente é infectada por qualquer vírus, tem uma fase inicial de infec√ß√£o propriamente dita e depois se recupera. Recupera-se porque, normalmente, produz anticorpos contra esse vírus, e isso d√°, geralmente, uma prote√ß√£o definitiva, perene, para o resto da vida", explica o especialista.

"O que est√° acontecendo nessa grande epidemia é que temos uma grande quantidade de indivíduos que j√° tiveram a doen√ßa, j√° se recuperaram e, portanto, t√™m anticorpos circulantes em seu plasma e, ao mesmo tempo, temos pacientes que est√£o recentemente infectados, que apresentam a forma grave da doen√ßa, aquela que afeta, principalmente, o pulm√£o. O indivíduo n√£o consegue respirar direito e tem que receber o auxílio de uma m√°quina, o ventilador [mec√Ęnico] e ficar na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] por alguns dias, geralmente sete, oito, nove dias", completa.

A inten√ß√£o é aliviar os sintomas graves e também desafogar os leitos de UTI. "Tentar diminuir, portanto, a carga que o sistema de saúde est√° recebendo por parte da interna√ß√£o desses pacientes graves", pontua o diretor.

Resultados promissores

Em nota divulgada na última sexta-feira (3), a Ag√™ncia Nacional de Vigil√Ęncia Sanit√°ria (Anvisa) destacou que pesquisadores dedicados a an√°lises semelhantes j√° t√™m obtido "resultados promissores". A autarquia pondera, entretanto, que as conclus√Ķes n√£o podem ser encaradas como uma "comprova√ß√£o definitiva sobre a efic√°cia potencial do tratamento", devido à inobserv√Ęncia de critérios científicos rigorosos, como abrang√™ncia da amostragem. Segundo Wendel Neto, a China foi o país pioneiro nesse tipo de experi√™ncia.

Diferentemente dos estudos citados pela Anvisa, a pequisa desenvolvida pelos órg√£os paulistas possui um grupo de controle, que confere mais relev√Ęncia aos resultados atingidos, por permitir que os pesquisadores mensurem os efeitos de uma interven√ß√£o - nesse caso, a introdu√ß√£o do plasma.

Trabalho experimental

Wendel Neto destaca que a pesquisa do grupo é "um trabalho experimental" e que, apesar de a equipe almejar um resultado satisfatório, n√£o pode "prometer uma cura miraculosa" à popula√ß√£o. O diretor do Sírio-Liban√™s informa que cerca de 100 ex-pacientes dever√£o doar plasma para o experimento e outras 100 pessoas dever√£o formar o grupo de controle.

"Essa terapia n√£o é nova, j√° foi testada com v√°rias infec√ß√Ķes, em v√°rias epidemias. Nos últimos 20 anos, foi testada para a epidemia de Sars [Síndrome respiratória aguda grave], em 2003; na √Āfrica, para uma das epidemias de ebola, para infec√ß√£o por H1N1, mas sempre foi testada em pequena escala, n√£o em larga escala, e com resultados vari√°veis, mas que n√£o s√£o ruins. E a gente n√£o est√° querendo promover a cura imediata desses pacientes, a gente quer contribuir, junto com uma série de outras medidas, para tentar reduzir a gravidade da doen√ßa. A gente est√° recebendo uma quantidade brutal de pacientes no sistema de saúde, n√£o só no Brasil, mas no mundo inteiro", acrescenta o diretor.

A Ag√™ncia Brasil também solicitou ao diretor do Sírio-Liban√™s que elencasse quais comportamentos considera fundamentais para a conten√ß√£o do vírus. Ele afirmou que, nos últimos dias, tem se "decepcionado" com o relaxamento de parte dos brasileiros quanto ao distanciamento social, porque avalia que permanecer em casa é, nesse momento, algo essencial para se evitar a transmiss√£o do agente patog√™nico.

Requisitos para doação de sangue

Segundo Wendel Neto, para que uma pessoa possa doar sangue para o experimento, dever√° seguir algumas regras. Ser√£o aceitas doa√ß√Ķes de homens com idade entre 18 e 60 anos, peso corporal superior a 65 quilos, que tiveram teste positivo (RT-PCR) para o novo coronavírus e que estejam bem de saúde h√°, no mínimo, 14 dias. Também é exigido dos doadores que tenham apresentado um quadro leve de covid-19 ou mesmo que tenham se mantido assintom√°ticos.

Os volunt√°rios também n√£o podem ter contraído hepatite, doen√ßa de Chagas nem HIV durante a vida. O diretor esclarece que o sangue de mulheres n√£o ser√° coletado porque, se j√° tiverem passado por alguma gravidez, poder√£o ter desenvolvido anticorpos contra leucócitos, que podem causar rea√ß√Ķes pulmonares graves em pacientes com covid-19. "A gente n√£o quer correr o risco de piorar o pulm√£o de alguém que j√° esteja com o pulm√£o afetado. Por isso, nesse primeiro momento, n√£o estamos aceitando mulheres. Pode ser que, posteriormente, a gente expanda", ponderou Wendel Neto.

Para se candidatar à doa√ß√£o, os interessados dever√£o entrar em contato com o banco de sangue do Hospital Sírio-Liban√™s, pelo telefone (11) 3394-5260. O atendimento é feito de segunda a s√°bado, das 7h às 16h, exceto feriados.

Os candidatos deverão responder, por telefone, um roteiro de perguntas, por meio do qual os atendentes poderão avaliar se estão aptos a fazer a doação de sangue. Se forem aprovados na avaliação preliminar, deverão comparecer ao local pessoalmente, em horário agendado pelos atendentes. Lá, farão uma nova avaliação e, então, serão encaminhados para a coleta da amostra de sangue que poderá confirmar se os pesquisadores poderão aproveitá-la para a pesquisa.

"Esse testes laboratoriais levam dez dias para ficarem prontos e, tão logo estejam qualificados do ponto de vista laboratorial, começamos a colher o plasma desses doadores", finaliza Wendel Neto.

Fonte: Agência Brasil

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